segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Traje Forense

É fato que este blog anda às moscas. Isso tem acontecido porque desde março passei a me dedicar com afinco obssessivo aos concursos públicos.
No último domingo fui prestar a prova preambular para delegado de polícia de São Paulo. Me mandaram lá para Guarulhos para fazer a prova, junto com pessoas de todo o Brasil, da letra R à Z. Em miúdos: desconsideraram totalmente a residência dos candidatos. Mas isso podia ser pior, teve gente que foi fazer a prova em Mogi das Cruzes...

Chegando ao local vi todo mundo de terno. Eu pensei: "ué, não precisava tanto, basta só estar com roupa típica de trabalho". O fato é que fui barrado na entrada por não estar de terno. Também foram barradas dezenas de pessoas que estavam com roupas "impróprias", segundo o delegado responsável.

Eu, na minha ingenuidade, interpretei "traje forense" como sendo a roupa que um delegado deve usar em suas atividades profissionais. Não sabia que era pra ir com roupa de casamento. Porém não fui o único, dezenas de pessoas foram barradas na entrada, principalmente mulheres, pois não estavam com o tal "traje forense".

Isso pelo menos me serviu de uma coisa: senti na pele o que é uma instituição ultrapassada e burocrática. Se numa prova de "marcar xizinho" eles barram quem não está de traje social completo, da pra sentir porque a polícia civil está defasada. E conversando com outros barrados, fiquei sabendo que isso é coisa da polícia civil de São Paulo, que esse tipo de postura não é regra nesses estados.

Isso também me serviu para pensar melhor que eu quero para minha vida profissional. Talvez um ambiente tão idiossincrático como esse não seja para mim.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Offline

Carrega rede, carrega rede.
Essa conexão que tanto cai
Coisas que são simples, mas
não carregam na minha rede.

Carrega rede, carrega rede.
Preciso ver aquele spam novo
Bater um papo com todo o povo
Mas não conecta a minha rede.

Carrega rede, aff, carrega rede...
Estou cansado de esperar
abrir o site daquele bar
E ler o cardápio que está na rede

Carrega rede, vamos aí, carrega re-de...
Vai logo, me deixar ver
Senão te troco pela tevê
E vou deitar na minha rede.

Voltou a rede, veja se pode
Agora chega de internet
Vou lá fazer algo que preste
Quem sabe ligo o meu iPod.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Depois do começo

Lázaro desceu as escadas, andou pela rua deserta, parou na esquina e olhou para os lados. Estava cansado de tudo isso. Entrou no seu carro velho com sua namorada que sempre o acompanhou. Pegaram juntos a auto-estrada. Numa curva ele sentiu um gelo na espinha. Tudo voltava, tudo era, tudo deixava de ser. Nas vitórias que teve sentia apenas ter cumprido seu dever. Mas nos fracassos, ah, nos fracassos ele se sentia vivo.

Mais vivo do que nunca com as mãos ao volante viu a curva da morte a sua frente. Tudo voltou a ser como antes. Tudo tinha se passado, nada tinha acontecido. Tudo que aprendera parecia não valer nada, porque a partir de então sabia que seria teria uma vida comum, ordinária. Não queria mais saber de pai, filha e de notícias escabrosas.

Essa é a estória de Lázaro, quem tiver alguma outra que me conte...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Orgulho

Lázaro não esperava por isso. Acreditava que seus "poderes" eram inofensivos. Mas viu a armadilha em que caiu. Sentiu-se desorientado, pois não sabia o que fazer. Não sabia se parava com tudo, se largava esse mundo de sonhos ou se o desvendava de vez por todas. Como um crédulo, resolveu então ir ao único lugar em que poderia ter uma resposta: o Jardim do Velho.

Encontrou-o sentado num banco rústico e largo de madeira. O velho oráculo estava lendo calmamente um jornal enquanto fumava seu cachimbo. Como uma criança que se machucou num brinquedo, o jovem Lázarao se lamuriou ao Velho, contando tudo o que acontecera. Este respondeu arregalando os olhos cheios de rugas:
- Meu filho, você foi orgulhoso. A húbris tomou conta de você. A realidade não pode ser tão transformada sem que se exija algo em troca. O orgulho e o poder ilimitado cobram preços altos demais para um simples ser humano. E saiba, você é um simples ser humano, apesar de tudo.
- E eu estou condenado a viver sozinho sem poder contar as pessoas sobre toda essa tragédia que vêm dos meus sonhos?
- Mas é claro que não. Há muitos como você. Basta procurar.
- Onde? - perguntou Lázaro.
O velho então abriu o jornal que estava lendo e rasgou lentamente uma página, entregando-a ao jovem. Este começou a ler nela uma nota. Era uma história estranha de um desaparecimento de uma criança chamada Valentina. O principal suspeito era seu próprio pai.
- Devo ir atrás dela? - perguntou Lázaro.
- Veja o que o pai dela diz em seus sonhos. Quem sabe você poderá fazer um bem ao pai e à filha.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O enigma do sino
















Ele continuava preso na armadilha de sonho. Cada vez que acordava as imagens, as sensações eram mais dissonantes e perturbadoras. Os rostos de seus amigos se difundiam, se confundiam e se misturavam. Sua falecida namorada saía do umbigo dele para ser posteriormente tragada involuntariamente por narinas. Era tudo estranho e perturbador. Nada fazia sentido.

Foi preciso um lapso de criatividade para que o enigma do paradoxo se resolvesse. Já entediado com tudo aquilo, o jovem começou a tentar moldar as imagens que via, juntando-as e separando-as com o movimento de seus braços. Começou a fazer objetos simples, como martelos, cadeiras, paredes, buracos e portas. Depois coisas mais elaboradas como, bicicletas, pássaros, árvores, relógios. Mas era tudo silencioso e efêmero. Surgiu então a ideia de fazer um sino. Juntou alguns pensamentos de metais que conhecia e forjou um enorme sino de ouro. Mas o objeto era tão grande e pesado que mal conseguia fazê-lo se mexer. Foi então que imaginou esse mesmo sino dependurado, alguns metros acima dele. Por fim imaginou uma corda atada ao pêndulo do pesado sino de ouro e, como uma criança, dependurou-se no sino, que produziu estrondosas baladas. Uma após a outra elas faziam tremer tudo que estava em volta. O nada tremeluzia e os pensamentos anteriores de Lázaro caiam ao chão, se estilhaçando em mil pedaços. No entanto, ele continuava dependurado. O sino batia cada vez mais forte, o som era cada vez mais terrível. O jovem sentia a corda vibrar cada vez mais intensamente. Foi então que a corda sumiu, o sino sumiu e Lázaro, também, sumiu.

Acordou com fortes badaladas de um sino distante, estava num sujo banco de praça numa manhã ensolarada. Ao fundo os sinos duma igreja tocavam alegremente. Muitas pessoas transitavam pela praça. Lázaro percebeu que, finalmente, havia se libertado do paradoxo. Havia resolvido o enigma.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Enfrentando o Paradoxo


As coisas do dia a dia aos poucos perdiam o sentido para o nosso heroi. Com treino e meditação, ele pode explorar mais e mais o mundo dos sonhos. Muito embora sua mente fosse bem clara e muito vazia de objetos e reminiscências, Lázaro percebeu que a mente dos outros eram pequenos, mas infinitos universos.

Viajar por seus sonhos era fácil e monótono. Lázaro já os conhecia bem. Não obstante, cruzando o subconsciente humano ele descobriu as portas e as janelas que conectam todas as mentes das almas vivas. Isso permitiu a Lázaro vislumbrar toda a infinitude de ideias e conceitos que habitam o subconsciente coletivo.

Com o tempo, ele se entediou com sua vida mundana. Passou a viajar cada vez mais pelo mundo dos sonhos. Deixou de dar importância para o tempo em que passava acordado as pessoas, todas lúcidas ao seu lado. Certo dia em um café, conversando com seu amigo Sérgio, passou a falar de suas viagens oníricas e de suas descobertas dos mais perturbadores pensamentos humanos. A princípio Sérgio encarou-o com bom humor, pois conhecia a personalidade de seu amigo. No entanto, os minutos foram passando e Sérgio começou a se sentir desconfortável com as frases sem sentido de Lázaro, que contava sem meias palavras como fazia para entrar nos sonhos das pessoas. Mas sabia ele que isso traria um efeito colateral.

Após um tempo de sua explanação perturbadora, como que num estalo, Lázaro sentiu uma mudança no ar. Olhou para a janela do café e viu nuvens cinzas se aglomerarem rapidamente. Raios reluziam conforme as nuvens mudavam de forma.

- Lázaro! Lázaro! - ouviu ele um chamado. Era Sérgio. Mas sua voz não saia de sua boca, que estava imóvel, mas vinha de longe, ecoando como se saísse do fundo de uma caverna.

- Lázaro! Lázaro! - novamente o chamado replicava. Lázaro sentiu uma vertigem, estava atordoado. A mesa, a xícara, a janela, tudo parecia derreter e borrar aos olhos dele. Sérgio já não era mais Sérgio. Ele era um ser sem forma, com olhos que mudavam de tamanho aleatoriamente. Sua boca e seu nariz dançavam pelo rosto que afinava e engrossava, acompanhando pulsações dissonantes. A janela se abriu, o vento entrou pelo café, e era ele tão forte que carregou papéis, xícaras, cadeiras, mesas, Sérgio, tudo.

- Lázaro! Lá...zaro! Lá...za...ro! - ele acordou.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Grandes poderes e nenhuma responsabilidade




Nos dias que se seguiram, Lázaro passou a encarar seus sonhos de outra forma. Era como se quando sonhasse estivesse plenamente consciente em seu universo onírico; e quando estava acordado parecia viver num estranho torpor. As pessoas, as coisas, as cores, tudo era mais vivo no sonho de Lázaro.

E foi nos sonhos alheios que Lázaro percebeu a "utilidade" de suas novas habilidades. Após muitos dias de concentração e de fracassos, ele conseguiu entrar nos sonhos de Dona Regina, sua patroa. Na mente dela, Lázaro percebeu o quanto era desprezado e ignorado no ambiente de trabalho. Para chamar a atenção de Dona Regina - que vivia nos seus meticulosos afazares subconscientes -, Lázaro precisou transformar-se num imenso gigante, cujas mãos esmagavam tudo o que distraia sua patroa. Pegou ela na ponta de seus imensos dedos, e disse palavras de ordem. Primeiramente exigiu um salário melhor, o que veio a se concretizar num aumento coletivo de salários na empresa. Depois, tentando ser mais valorizado, exigiu vantagens específicas para si, como subir na empresa e trabalhar menos. Como resultado, ganhou uma sala exclusiva no prédio, com direito a ar condicionado, vista panorâmica e uma máquina de café expresso de última geração.

Lázaro passou a ser o chefe do setor administrativo, cargo antes ocupado por Regina - que em vinte anos de empresa, nunca teve tais regalias. Ela, a propósito, passou a ser sua secretaria por algum tempo. Mas semanas depois, foi transferida para outro setor, e Lázaro pode escolher uma bela e jovem secretária para lhe passar o café e as ligações. Quanto às responsabilidades do cargo, deixava para Dona Regina, que após seu próprio expediente, subia para a sala de Lázaro e colocava tudo em dia.

No começo, Lázaro passava longos períodos olhando pela janela, enquanto pensava nas palavras daquele velho que vivia no jardim. Pensou em retornar para visitá-lo algum dia. Mas o tempo foi passando, e a imagem do velho foi ficando cada vez mais vaga e imprecisa. As frases profundas do sábio lentamente se perdiam no mundo mundano e estéril em que vivia o rapaz. No entanto, mal sabia ele que novas surpresas o esperavam.